O verão traz o fogo — e a fatura do seguro sobe com ele
Julho em Portugal significa termómetros a passar dos 35 graus, alertas laranja e vermelho sucessivos e, para quem tem casa perto de mato ou floresta, aquele nó no estômago sempre que o vento muda de direção. Mas há uma consequência menos visível deste calendário de risco que raramente entra nas conversas de quem compra ou já tem casa: o preço do seguro multirriscos habitação está a subir de forma acentuada, e 2026 marcou uma viragem clara nesse sentido. Segundo dados da Mudey, insurtech portuguesa que agrega cotações de várias seguradoras, os pedidos de simulação de Seguro Multirriscos Habitação em janeiro e fevereiro de 2026 aumentaram 96% face ao mesmo período de 2025 — um salto que os próprios analistas do setor associam às depressões e tempestades registadas logo no início do ano, que obrigaram muitos proprietários a olhar pela primeira vez com atenção para o que a apólice realmente cobre. O capital médio segurado nestas simulações foi de 233.601 euros, com 83% dos pedidos a vir de pessoas entre os 30 e os 59 anos — precisamente a faixa etária que está a comprar casa ou a renegociar crédito habitação neste momento. Curiosamente, 89% das simulações incluíram a cobertura adicional de danos por água e 80% a de riscos elétricos, o que sugere que os portugueses já perceberam que o pacote base de muitas apólices fica aquém do que uma casa moderna, cheia de eletrodomésticos e canalização exposta, realmente precisa. Basta pensar no caso mais comum: um casal na casa dos trinta anos que comprou o primeiro apartamento há três anos, contratou o seguro à pressa no dia da escritura e nunca mais voltou a abrir as condições particulares do contrato.
Ninguém compra uma casa a pensar no seguro. Devia.
Porque é que o prémio sobe mesmo sem ter mudado nada em casa
Se este ano a fatura do seguro chegou mais alta sem qualquer alteração na sua casa, há uma explicação técnica simples, e ela está escondida na letra pequena da maioria das apólices. Muitas seguradoras atualizam automaticamente o capital seguro com base no índice de custos de construção da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, e este índice subiu mais de 50% desde 2020. Na prática, se o valor do seu imóvel estava inflacionado à partida — o que acontece com frequência em apólices contratadas há uma década —, a correção automática pode disparar o prémio anual sem que tenha reforçado uma única parede. A isto soma-se a subida dos valores de referência da construção habitacional definidos para 2026: 945,66 euros por metro quadrado na Zona I, 826,65 euros na Zona II e 748,93 euros na Zona III, segundo os dados da APROSE. A associação atribui esta subida à escassez de materiais, ao custo da energia e à falta de mão de obra especializada — três fatores que, longe de serem exclusivos do setor segurador, atravessam toda a construção civil em Portugal neste momento. E como o índice de construção sobe todos os anos, mesmo quem contratou o seguro em 2024 já está a sentir o efeito da correção automática, muitas vezes sem perceber de onde vem o aumento na fatura anual.
Convém confirmar o capital seguro da apólice atual antes de a renovar por inércia. Se o valor não corresponde ao custo real de reconstrução da casa, está a pagar a mais — ou, pior, a menos, o que só se descobre depois de um sinistro grave.
O que a apólice cobre — e o que costuma ficar de fora
A maioria dos seguros multirriscos habitação inclui a cobertura de incêndio como base do contrato, mas nem todas cobrem explicitamente incêndios de origem florestal que atinjam a casa a partir do exterior. É esta distinção, escondida nas condições particulares e raramente explicada ao balcão, que separa uma indemnização integral de meses de discussão com a seguradora. Antes de assinar, confirme estes pontos, de preferência por escrito:
- Se a cobertura de incêndio inclui explicitamente fogo de origem florestal ou apenas fogo com origem dentro da própria habitação
- Se a cobertura de danos por água, presente em 89% das simulações recentes, inclui infiltrações graduais e não apenas roturas súbitas de canalização
- Se os riscos elétricos cobrem sobretensões causadas por trovoadas, frequentes nos temporais de verão que atravessam o país todos os anos
- E, já agora, pergunte também qual é o prazo para participar um sinistro — alguns contratos exigem comunicação em 48 horas, outros dão uma semana inteira
Não vale confiar apenas no resumo verbal do mediador no balcão do banco. Peça as condições particulares em PDF e leia primeiro a secção de exclusões, antes de qualquer outra coisa no contrato.
Cobertura sísmica: onde compensa, onde é dinheiro a mais
A cobertura sísmica é um dos extras mais discutidos nas conversas de compra de casa, e a resposta simples de "contrate sempre" não está certa. É verdade que essa cobertura é especialmente recomendada no Sul do país e em zonas costeiras, historicamente mais expostas a atividade sísmica, e que agrava o prémio anual entre 15% e 30%. Numa casa com capital seguro de 233.601 euros, a média nacional das simulações recentes, isso pode significar mais 100 a 200 euros por ano. Para quem compra um apartamento no interior norte, longe de qualquer falha sísmica ativa e sem histórico relevante na zona, esse acréscimo pode não se justificar da mesma forma. A pergunta certa a fazer ao mediador não é "quanto custa", mas "qual é a probabilidade real na minha localização" — e essa resposta está nos mapas de perigosidade sísmica que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera disponibiliza publicamente a quem quiser consultar.
O seguro obrigatório que o Governo aprovou em abril
Em abril de 2026, no âmbito do Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência (PRR), o Governo aprovou a criação de um seguro obrigatório de proteção contra catástrofes naturais e sísmicas para habitações. A medida integra-se num Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas, apoiado por um mecanismo de solidariedade que visa garantir acesso universal a esta cobertura, com apoios do Estado direcionados às famílias com menores rendimentos. Na prática, isto significa que, quando entrar em vigor, deixar de fora a cobertura sísmica ou de catástrofes naturais deixará de ser uma opção de poupança e passará a ser parte obrigatória do pacote, à semelhança do que já acontece noutros países europeus expostos a risco climático elevado.
A tempestade Kristin, que atingiu Portugal em 2026 com prejuízos avultados, mostra porque é que esta mudança está a ser empurrada com urgência: milhares de portugueses descobriram, já depois do estrago feito, que boa parte dos danos causados por fenómenos meteorológicos extremos não estava coberta pela apólice que tinham contratado. Não é um cenário hipotético — é o que aconteceu há poucos meses, com telhados arrancados e caves inundadas que a seguradora recusou indemnizar porque a cobertura contratada não incluía esse tipo específico de evento. Vale registar, ainda assim, que os detalhes finais do novo regime — prazos de transição, valores de prémio mínimo, forma de articulação com as apólices já existentes — continuam por regulamentar em concreto.
Antes de comprar ou renovar a apólice, faça as contas
Quem está a comprar casa este verão tende a somar tudo o que já sabe pesar na decisão — a taxa de juro, o IMT, as obras a fazer — e a tratar o seguro como um extra de última hora, quase administrativo. É um erro de cálculo. Melhor opção: peça três cotações antes da escritura, não apenas à seguradora ligada ao banco que financia a casa, porque a diferença de prémio entre seguradoras para o mesmo capital e as mesmas coberturas pode facilmente ultrapassar os 200 euros anuais.
Evite assinar a primeira proposta apresentada no balcão sem comparar coberturas linha a linha — o preço mais baixo esconde quase sempre uma exclusão relevante, normalmente a que mais lhe interessava. E não deixe a revisão da apólice para depois de um imprevisto: reveja o capital seguro sempre que fizer obras que alterem o valor de reconstrução da casa, e volte a confirmar as coberturas de incêndio florestal e de catástrofes naturais assim que o novo seguro obrigatório for regulamentado — a transição entre o regime atual e o novo fundo ainda não tem todos os detalhes definidos publicamente.