Há casas que parecem perfeitas na visita de uma manhã de abril e se tornam um forno em agosto. O agente abre as janelas, entra uma brisa, tudo parece arejado — e três meses depois está a dormir com o ventilador no máximo e a conta da luz a subir. O verão é o pior momento para visitar uma casa e, ao mesmo tempo, o melhor: é agora que se vê como o imóvel se comporta quando o termómetro passa dos 35 graus.
Comprar uma casa pelo conforto térmico não é uma preocupação de luxo. Numa altura em que as ondas de calor são cada vez mais longas e a fatura energética pesa no orçamento, a forma como uma habitação aquece e arrefece determina quanto vai gastar todos os meses durante anos. Vale a pena olhar para isto com a mesma seriedade com que se olha para a localização ou para o estado da canalização.
O certificado energético diz mais do que parece
Em Portugal, qualquer imóvel à venda tem de ter certificado energético. A maioria das pessoas olha para a letra — A, B, C, até F — e segue em frente. Mas o documento, na íntegra, traz informação que vale ouro: indica o consumo estimado de energia, identifica as fragilidades do isolamento e, muitas vezes, lista medidas de melhoria com uma estimativa de custo.
Uma casa com certificado D ou inferior não está condenada, mas avisa-o de que vai precisar de investir. A diferença entre um B e um E pode representar várias centenas de euros por ano em aquecimento e arrefecimento. Peça sempre o certificado completo, não apenas a etiqueta colorida do anúncio — e desconfie de imóveis recentes com classificação baixa, porque isso costuma significar construção feita a pensar no preço por metro quadrado e não em quem lá vai viver.
Para que lado dá a casa?
A orientação solar é o fator mais barato de avaliar e o mais ignorado. Uma sala virada a poente apanha sol de tarde em cheio: é luminosa no inverno e insuportável nas tardes de julho. A norte raramente entra sol direto — fresca no verão, mas fria e húmida nos meses frios. O ideal, no clima português, costuma ser quartos a nascente, que apanham o sol da manhã e arrefecem ao fim do dia, e zonas de estar a sul, com boa proteção de palas ou estores.
Leve uma bússola — ou simplesmente abra o mapa no telemóvel — e veja para onde dão as janelas principais. Repare também na presença de sombra exterior: uma árvore de folha caduca a poente faz mais pela temperatura da casa do que muitos aparelhos de ar condicionado, e não consome nada.
O isolamento é o que não se vê
Aqui está o problema: o isolamento é precisamente aquilo que não aparece numa visita. Paredes duplas com caixa de ar, isolamento na cobertura, vidros duplos com corte térmico — nada disto se nota a olho nu, e é tudo o que separa uma casa confortável de uma casa cara de manter.
Faça perguntas concretas. Os vidros são simples ou duplos? As caixilharias são de alumínio sem corte térmico (péssimas) ou de PVC e alumínio com corte (boas)? A cobertura tem isolamento ou é só telha sobre laje? Em apartamentos, um piso intermédio com vizinhos por cima e por baixo é termicamente mais estável do que um último andar exposto ao sol da cobertura. E toque nas paredes interiores numa tarde quente: se estiverem mornas, o calor está a entrar e a ficar.
Climatização: o custo que vem depois
Muita gente assume que basta instalar ar condicionado e o problema do calor desaparece. Desaparece — e reaparece na fatura. Arrefecer uma casa mal isolada com equipamento é como aquecer a rua: a energia entra e sai sem parar. O ar condicionado deve ser a última camada, não a primeira solução.
Antes de comprar, pergunte o que já existe. Há pré-instalação para multissplit? A bomba de calor, se houver, serve para aquecimento e arrefecimento? Estes sistemas, bem dimensionados numa casa isolada, são dos mais eficientes do mercado. Mas instalados à pressa numa casa que perde calor por todo o lado, viram um sorvedouro de dinheiro.
O que levar na próxima visita
- O certificado energético completo, não só a etiqueta — leia as medidas de melhoria sugeridas.
- Uma noção da orientação das janelas principais e das fontes de sombra exterior.
- Perguntas sobre vidros, caixilharia e isolamento da cobertura, por escrito se possível.
- A fatura energética do vendedor de um mês de verão e de um de inverno — nada descreve melhor a casa real.
Comprar casa é a decisão financeira mais importante que a maioria de nós toma. Gastamos horas a discutir a cozinha e a cor das paredes — coisas que se mudam num fim de semana — e quase nada a perceber se a casa será suportável em agosto. A orientação não se muda. O isolamento muda-se a custo elevado. Avalie isto antes de assinar, porque depois de assinar já é tarde para escolher para que lado dá o sol.